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Geografia

 

 

Sob o nome de Lezíria Ribatejana estendem-se as várzeas do rio Tejo, obviamente, mas também dos rios Sorraia e do Almansor, quando atravessam os Concelhos de Benavente, Salvaterra de Magos, Vila Franca de Xira, Coruche e Azambuja.

 

Terras de aluvião, férteis desde a aurora do mundo, são por isso mesmo terras de enchentes, alagadas periodicamente pelos rios que transbordam do seu leito.

 

São planícies extensas e verdes, de horizontes amplos e campos a perder de vista, atravessados pelos trote pesado dos touros bravos e o galope livre dos cavalos lusitanos e sorraias.

 

Com os campos sem fim e a água sempre presente, esta é uma terra de agricultores e pescadores, de campinos e barqueiros, de gente única e original que aprendeu mais do que nenhuma outra a respeitar os ritmos e os caprichos da natureza para saber tirar da terra e da água o seu sustento e a sua riqueza.

História

 

 

A ocupação humana do Ribatejo foi sempre muito intensa e perde-se na memória dos tempos. Zona de grande riqueza natural, foi procurada desde a pré-história por bandos que viviam da caça, da pesca e da recolecção. São inúmeras as estações arqueológicas na região com vestígios de ocupação pré-histórica, desde o paleolítico, o mais antigo e maior período da história humana. No Concelho de Salvaterra de Magos, em particular, encontra-se o Complexo Mesolítico de Muge, uma das mais importantes estações arqueológicas do mesolítico de toda a Europa, com incalculável valor científico e classificado como Monumento Nacional.

 

Durante a ocupação romana, floresceu a cidade de Scalabis, actual Santarém, que se manteve sob domínio árabe desde 715 até à sua conquista por D. Afonso Henriques, em 1147.

 

Com o fim do domínio muçulmano o Ribatejo ficou sob a proteção da Ordem dos Templários, que instalou em Tomar a sua sede, onde viria a ser substituída pela Ordem de Cristo. Várias vezes se reuniram as Cortes nesta zona do país, tendo sido Almeirim residência favorita dos últimos reis da segunda dinastia.

 

Terra de trigo e de melão, de gado bravo e de cavalos, a lezíria ribatejana esteve sempre ligada à capital do reino pela grande estrada líquida do Tejo. Com a implantação definitiva do arroz, no final do séc. XIX, a fisionomia da terra alterou-se. Grandes espelhos líquidos ocuparam com a sua geometria verde a planura do chão e, com a sua exigência constante, as mãos dos homens e das mulheres ribatejanas.

 

Novas operações de cultivo, como a preparação do terreno, a sementeira, a monda e a retancha, a ceifa e a debulha, passaram a marcar a rotina e a realidade da lezíria. No tempo da colheita, quando o automóvel ainda era uma raridade nas estradas de Portugal, as ruas das povoações transformavam-se em longas eiras, onde os bagos de bom Carolino secavam ao sol.

 

Hoje, quando o arado, a tracção animal, a enxada ou a foice não passam de recordações dos mais velhos, e os mais novos fertilizam os campos de avioneta e fazem colheitas com uma frota de ceifeiras debulhadoras de última geração, parece que a história de um século mudou para sempre a face da região.

 

Mas a verdade é que, apesar da fantástica tecnologia que empurrou os níveis de produtividade e qualidade para patamares nunca sonhados, na essência, nada mudou. O orizicultor ribatejano continua a produzir com paixão e orgulho o arroz mais famoso de Portugal. E a comover-se, como os seus avós, com o nascer do sol na lezíria e com o cheiro do arroz doce acabado de cozer.

Fauna e Flora

 

 

Um mundo verde e aquático, plano e homogéneo. Uma agricultura que respeita o meio ambiente.

 

Que vida se esconde na Lezíria?

Na verdade, a charneca, os pauis e as zonas húmidas do estuário do rio Tejo, reúnem uma biodiversidade de tal forma significativa que justificaram a sua inclusão na Zona de Protecção Especial e na Reseva Natural do Estuário do Tejo. A começar pelos insectos, importantíssimos no controle natural das pragas e na polinização, e a acabar em mamíferos como a geneta e a lontra, que tem vindo a reaparecer na região.

 

Mas é no mundo das aves que o habitat da lezíria se revela deslumbrante. Cerca de quinze espécies de aves nidificam nos terrenos, canais e construções das lezírias do Tejo, sendo as mais abundantes o trigueirão, a andorinha das chaminés, o pato-real, a codorniz, a galinha-d’água, mas, também, a garça-vermelha, o perna-longa, a perdiz-do-mar, o tartaranhão-ruivo-dos-pauis e o borrelho-de-coleira-interrompida. No Inverno, a avifauna das Lezírias é globalmente mais abundante e de maior diversidade. Chegam a ocorrer, nesta fase do ano, mais de trinta espécies, entre as quais a garça-boieira, a coruja-das-torres, a narceja-comum, o peneireiro-vulgar.

 

Mas para seis espécies de aves limícolas o estuário do Tejo constitui um refúgio de importância internacional: a tarambola-cinzenta, o alfaiate, o perna-longa, o maçarico-de-bico-direito, o perna-vermelha-comum e o pilrito-comum, encontram aqui alimento e protecção nas suas migrações anuais, o que deu a esta região a designação de Sítio Ramsar, ou seja um local de importância mundial na Convention on Wetlands.

 

E é nesta região, uma das últimas regiões preservadas e naturalmente protegidas do território nacional, que a Orivárzea planta, colhe, trata e embala o arroz que chega à sua mesa. Pode comer à vontade. Há poucos alimentos mais naturais que o nosso arroz.